TRANSECTUS

A clássica figura arquitetônica do Panopticon de Jeremy Bentham incorpora uma torre central e uma construção em forma de anel dividida em células, em que cada uma extende-se em um complexo de corredores e janelas pelo edifício, permitindo a visualização interna e externa. Os ocupantes das células são assim controlados, isolados um dos outros por paredes e expostos para serem examinados tanto coletivamente como individualmente por um observador na torre que não pode ser visto. O Panopticon assim permite ver sem ser visto, a essência do poder de Foucault -- de acordo com ele, a visibilidade ou vigilância proporcionada pelo Panopticon foi dividida em dois tipos: a sinótica e a analítica. O Panopticon, em outras palavras, foi desenvolvido para assegurar a vigilância que pode ser tando global como individual.

O avanço da tecnologia genética, a transgênese está criando um novo Panopticon. É a versão transgênica do Panopticon que vai muito além de um complexo arquitetônico. A nova versão pode ser explicada na capacidade de empresas gigantes como a Monsanto conseguiram, por exemplo, introduzir um gene anticongelamento do peixe linguado no código genético de um tomateiro para proteger a planta das geadas. As novas ferramentas genéticas agora lhes permitem transpor todas as fronteiras biológicas, acrescentando genes provenientes de vírus, bactérias, outros animais e plantas no código genético de plantas alimentícias tradicionais.

Nesta versão transgênica do Panopticon, a torre do complexo circular de Bentham, é substituída por empresas com tecnologia genética. As células que dividem a construção representam os agricultores, produtores de leite e criadores de animais para o abate, que, obrigados a adotar a tecnologia genética na produção de alimentos, tornam-se dependentes destas empresas. Isso não significa apenas o controle de uma empresa sobre a produção de alimentos, mas também o poder desta empresa privada sobre da natureza e sobre o animal que depende desta produção de alimentos para sobreviver: o ser humano.

As empresas privadas com tecnologia transgênica já estão alterando o ciclo da natureza: morangos já podem ser colhidos ao longo de todo o ano em alguns países, mas segundo o engenheiro agrônomo Átila Ross existe o risco de um enorme desastre ambiental. Explica: "Sempre que um organismo geneticamente modificado é liberado, há uma pequena chance de que ele também comporte-se de maneira descontrolada porque, como as espécies não-autóctones, foi introduzido artificialmente em um ambiente complexo, que já desenvolveu uma teia de relações altamente integradas no decorrer de longos períodos da história evolucionista."

O Brasil ainda está em cima do muro nessa matéria. Mas já realiza experimentos de campo com a soja da americana Monsanto, o arroz da alemã AgrEvo e o milho da suíça Novartis. Com o recado de Marijane Lisboa, coordenadora da Campanha de Engenharia Genética do Greenpeace Brasil: "O milho da Novartis apresenta para o Brasil um complicador ambiental. Somos um centro de diversidade do milho. Uma nova variedade transgênica pode cruzar com as variedades existentes, degradando-as. A ameaça é real porque a polinização do milho é cruzada."